Preciso desabafar. Hoje, saindo da festa na DJ Club, o smog paulistano me impedia de ver o final da Franca, quando ela desemboca na Campinas. Meus óculos, embaçados pelo calor de meu corpo, pesavam sobre o meu nariz. Meus pés, doídos de tanto andar pela tarde e dançar noite adentro, latejavam enquanto subiam desnorteados a Pamplona, para mais tarde dobrarem na Itú.
O ressoar dos copos plásticos no declive deserto, faziam ressoar em minha cabeça as, dolorosamente maravilhosas, lembranças dessa festa. Ela era linda. Ela era linda e usava sapatinhos vermelhos. O seu olhar, tão distraído e bobo, era negro e profundo como a noite. Eu poderia me perder nele pelo resto da vida, e mesmo assim nunca me arrependeria.
Seu jeito desajeitado de dançar (meio retraída por minha causa? provável) fazia com que meu enfraquecido coração batesse mais rápido de alegria. Mas infelizmente, pelo fato de eu ser um imenso (em todos os sentidos que essa palavra pode abrangir) panaca, eu fiquei apenas por aqui.
A música era "Candy", do Iggy Pop com a Kate Pierson (uma das músicas mais apaixonantes do universo). Ela estava ao meu lado e sua amiga à minha frente. Eu dançava alegremente, como sempre faço, olhando fundo nos olhos dela. Às vezes ela desviava o olhar. Provavelmente não queria nada, mas será mesmo? Ela retribuía, tenho certeza.
"Just Like Heaven", The Cure, Robert Smith. Isso já é apelação. Por quê logo essa música? Eu continuava olhando nos olhos dela e ela nos meus. Cantava a música com toda a paixão que poderia exprimir de mim mesmo naquele momento. Seus sapatinhos vermelhos gingavam pela pista. Minhas mãos: congeladas. Minha boca: costurada. Eu simplesmente não conseguia interagir com a minha linda garota. Eu precisava dizer que ela era linda. Eu TINHA que dizer.
Minha vontade era de pegar na mão dela e levá-la à um lugar mais calmo para dizer que a achava linda. Certas coisas realmente devem ser ditas. Porém, eu sou um traidor de mim mesmo. Um fracassado sem limites e o máximo que fiz foi uma cara de cachorrinho escurrassado... Quem quer um pessoa ridícula dessas? Acho que ninguém.
Depois de "Strangelove" e mais duas músicas ela e sua amiga sumiram da minha vista. E lá fiquei. Sozinho. Imaginando o seu calor no meu corpo. A amando da melhor forma que sei amar uma pessoa.
Dentro da minha cabeça.
E assim, voltando para casa, só posso constatar que aqueles sapatinhos vermelhos ficarão para sempre na minha imaginação, como mais uma relíquia assim como as fivelinhas de alumínio.
Se você por acaso vier a ler isto, garota dos sapatinhos vermelhos, saiba que eu a amei do fundo da minha alma por uma noite e saiba também... Você é linda, e vou amá-la para sempre toda vez que me lembrar de seus sapatinhos e do seu olhar.
5 semanas atrás

1 comentários:
pode até ser que ela não leia, ms fica como prêmio de consolação saber que você faz parte de um rol seleto de caras: aqueles que se apaixonam por detalhes...
excelente texto. vou te linkar no meu blog =)
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