Era mais uma daquelas noites insones. Estava eu deitado no sofá observando o reflexo de mais uma madrugada no teto da sala esperando o tempo passar. A gata, provavelmente em seu septuagésimo sexto sono, jazia escondida em algum recôndito pelo apartamento. Debaixo do fogão? Em cima da geladeira? Não sabia. Tais questionamentos eram o máximo que meu cérebro, lesado pela insistente falta de sono, me permitia conjecturar. Depois disso, só conseguia me perder à palavras soltas que meu inspirado inconsciente pulsava, para minha primeira linha de pensamento, na frequência do reflexo dos faróis dos carros através da janela. Frango. Gato. Verde. Amassar. Horripilante. Acredito que essas tenham sido algumas. Comecei então a sentir aquele leve formigamento na ponta dos dedos dos pés e minha visão periférica começar a turvar desfraguimentando-se em pequeniníssimos quadrados furta-cor. Naquele momento, tive certeza que meu sono estava próximo.
Episódio de Hoje: "O Cavaleiro de Queijo"
Não lembro quanto tempo passou. A única coisa que lembro foi de não ter lembrado que a luz amarelada da passagem para o quarto estar acesa. Sem me levantar, virei a cabeça e, ainda deitado, fiquei olhando naquela direção. Não conseguia pensar em nada e minha atenção estava toda voltada para aquela parte de minha casa. Foi quando, vestida em um belo terno feminino preto como a mais densa noite e usando um belíssimo e ofuscante diamante em seu peito, Nina, a gata, atravessou a porta do quarto em passos flutuantes. Andava sobre duas pernas e, sustentada sob sua pata direita, havia uma bandeja; sob a bandeja, havia um cálice fabricado do mais fino cristal que refratava o brilho da jóia no peito da gata.
"Aceitaria um pouco do vinho, caro amo?" - perguntou a gata - "Este é de bom ano e excelente safra." - reiterou ela.
"Não. Estou me sentindo mais apto a jogar um pouco de azeitonas hoje." - respondi compreensivamente.
Acenando com a cabeça, Nina consentiu com minha vontade e deixou-me mais uma vez a sós no sofá. Voltei a olhar para o teto. Aquela noite estava belíssima; o céu estava limpo e não havia outras luzes que não fossem as estrelas e a da gigantesca lua cheia que o preenchia. Me sentia estranhamente leve, como se estivesse perdido boa parte do meu peso. Em contra partida sentia o sofá mais duro e frio e logo percebi que não mais nele estava deitado, mas sim em um largo bloco de alvenaria.
Levantei e senti a grama aos meus pés. Era engraçado, pois meus movimentos demoravam para responder aos meus comandos e eram feitos progressiva e maleavelmente como se não houvesse mais distinção entre carne e ossos. Olhei minhas mãos. Percebi que estava amarelo com grandes e pequenos furos espalhados pela extenção de meu braço. Curioso com minha situação, tentei inspirar fundo, mas o ar se perdia pelos canais de meu corpo. Era como se eu estivesse com asma, mas sem ser prejudicado pela dispersão do oxigênio.
Depois que testei a maior parte dos limites de meu novo corpo, pulando e esticando, percebi que havia um desenho indescritivo no bloco de alvenaria. Eu sabia o que ele significava, então resolvi abrir o tampo do bloco descobrindo que o mesmo era um antiquado sarcófago. Olhei para dentro, mas nada vi além de escuridão. Comecei a pensar que tipo de coisas encontraria lá dentro, mas meu ímpeto desbravador me fez não me contentar em ficar pensando e descer alí para descobrir que mistérios havia por lá.
No começo de meu percurso nada conseguia ver. Sentia apenas o ar pesado daquele ambiente atravessar as vias de meu novo corpo que, por sinal, emanava um tênue brilho pálido. Percebia nitidamente que veias de bolor iam sutilmente formando-se sobre minha superfície. Queria voltar. Quando pensei em dar meia volta, comecei a perceber que o ambiente no qual estava possuía paredes de barro úmido e por toda a sua extensão jaziam ossos de aves de todos os tamanhos.
No começo fiquei assustado com aquilo, mas depois percebi que, de alguma forma eu poderia tirar proveito daquela situação. Então, juntei alguns daqueles ossos e montei um grande esqueleto de falcão que passei a chamar de Flecha-Veloz. Montei nele e continuei andando pelo túnel até o final do túnel que agora era iluminado por archotes em brasa. Depois de passarmos por aquela macabra estrada de ossos subterrânea, eu e Flecha-Veloz paramos em uma gruta com um grande lago cristalino onde a lua refletia sua bela face iluminando palidamente o ambiente.
Montado em Flecha-Veloz, fitei meu reflexo no lago subterrâneo. Pude perceber então como estava minha forma atual: meu corpo era de um amarelo leitoso e o bolor que nele se formara havia tomado forma de longos cabelos e uma barba bem aparada. Eu não possuía face. Achei que estava diferente. Gostei disso. E uma feminina límpida e ressonante preencheu toda a gruta:
"Ó, nobre cavaleiro amarelo que há de cavalgar um falcão que não mais pertence ao mundo dos seres viventes, ouvide meu apelo! Soube que de onde tu vens tu és o mais proeminente com o escudo e o mais veloz com o gládio. Não queres tu, ó, nobre homem, ser merecedor do melhor de todos os escudos e do mais feroz dos gládios e tomá-los para ti?"
"Minha cara voz que reverbera pelas paredes desta gruta, como posso eu querer me tornar merecedor de uma coisa que já mereço?" - interpelei eu.
"Pois atravessas este lago e alcança o topo da grande rocha que rasga o céu. Se conseguires, ó, cavaleiro, lá encontrarás o que mereces!"
Tão logo a voz terminara de falar, o chão começara a tremer e uma grande estalagmite brotou do centro do lago e rasgou o céu o incandescendo de um rubror espectral. Observando o fenômeno por algum tempo, pedi para Flecha-Veloz seguir para o topo daquela formação. Quanto mais subíamos mais eu sentia meu corpo enrigecer-se por consequência do frio que fazia alí em cima, mas consegui aguentar firme e forte.
Chegando no topo lá estavam o gládio e o escudo ambos de um ofuscante prateado. Ao pegar naquelas armas, logo senti que as mesmas emanavam uma força além do normal e que, com elas, eu era capaz de qualquer coisa. Me sentia completo. E foi nesse momento de plena felicidade que ele surgiu. No começo, em forma de fumaça negra e cheiro de enxofre; depois, em forma de fogo e brasa e por fim o Grande Galo apareceu cuspindo baforadas de enxofre incandescido!
Senti as bochechas do meu rosto quase derreterem, mas eu tinha a melhor das armas e a melhor das defesas. Não tinha como perder uma luta como aquela por maior que fosse o Grande Galo. Lendo meus pensamentos, Flecha-Veloz vôou feroz na direção daquele monstro hediondo e alí mesmo começamos um duelo que durou sete dias e seis noites. Eu perdi um braço e ganhei um rombo em minha barriga, mas acabei por derrotar a fera. Como recompensa arranquei de suas entranhas um pequeno vidro de conserva cheio de esmeraldas e jades. Estava rico!
A felicidade de minha conquista aquecia o meu peito, mas eu não percebia que, ao fazer isso, a felicidade acabava por me derreter. Sentia como se estivesse todo molhado depois de uma chuva e tinha muita dificuldade para respirar. Foi aí que abri os olhos e percebi que havia voltado para meu sofá. Minha pequena gata que antes estava escondida em algum lugar da casa dormia em cima de minha barriga. Sorri comigo mesmo achando tudo aquilo muito engraçado e voltei a dormir.
Fim
6 dias atrás
